Mês do Folclore

O Mês do Folclore 2026 propõe uma reflexão sobre os muitos sentidos da casa na cultura brasileira. Muito além de uma construção destinada ao abrigo, a casa é apresentada como um patrimônio vivo, espaço onde se formam vínculos, se constroem memórias e se transmitem saberes, práticas, valores e modos de viver.

“Ôoo de casa!” Antes de entrar, pede-se licença. Presente em diferentes regiões do Brasil, essa saudação tradicional anuncia uma chegada, mas também expressa uma maneira de compreender as relações humanas. Ao chamar da porteira ou bater à porta, reconhece-se que toda casa guarda uma intimidade, uma história e um tempo próprios. O encontro começa pelo respeito.

Inspirado nessa expressão, o Mês do Folclore 2026 propõe uma reflexão sobre os muitos sentidos da casa na cultura brasileira. Muito além de uma construção destinada ao abrigo, a casa é apresentada como um patrimônio vivo, espaço onde se formam vínculos, se constroem memórias e se transmitem saberes, práticas, valores e modos de viver.

A pesquisa que fundamenta esta edição parte da compreensão de que o ato de habitar acompanha a própria história da humanidade. Antes mesmo da arquitetura, existia a necessidade de proteger a vida. Ao longo do tempo, diferentes povos construíram suas moradas em diálogo com o clima, a paisagem, os materiais disponíveis e suas formas de organização social, criando maneiras diversas de viver e de se relacionar com o território.

Nesse percurso, a casa deixa de ser entendida apenas como estrutura física para tornar-se uma expressão da cultura. Ocas, malocas, casas de taipa, ranchos, moradias caiçaras, quilombolas e ribeirinhas, casas urbanas, periferias e apartamentos revelam que não existe um único modo de morar. Cada comunidade desenvolve formas próprias de construir, ocupar e transformar seus espaços, incorporando conhecimentos acumulados ao longo de gerações.

A exposição evidencia que patrimônio material e patrimônio imaterial constituem uma mesma experiência cultural. As paredes, os quintais, os objetos, as ferramentas e as técnicas construtivas só encontram sentido porque abrigam histórias, práticas e relações humanas. Da mesma forma, os saberes tradicionais permanecem vivos porque encontram expressão na matéria, nos gestos cotidianos e nos espaços onde a vida acontece.

A pesquisa também destaca que construir uma casa sempre significou construir relações. Em diferentes regiões do país, mutirões, puxirões, adjuntos e outras formas de trabalho coletivo revelam uma organização baseada na reciprocidade e na cooperação. Levantar uma morada envolve muito mais do que erguer paredes: reúne vizinhos, fortalece laços comunitários, mobiliza cantos de trabalho, saberes construtivos, práticas culinárias e experiências compartilhadas que fazem da casa uma obra coletiva.

Depois de construída, a casa continua sendo transformada por quem a habita. Portas, janelas, varandas, alpendres, quintais, cozinhas e terreiros tornam-se espaços de convivência, aprendizagem e transmissão cultural. É nesses ambientes que se aprende observando os mais velhos, cultivando a terra, preparando alimentos, compartilhando histórias, brincadeiras, celebrações e formas de cuidado. A casa ultrapassa seus limites físicos e passa a dialogar com o quintal, a roça, a mata, o rio e toda a paisagem que participa da vida cotidiana.

Outro aspecto abordado pela pesquisa é a dimensão simbólica da casa na cultura popular brasileira. Diversas manifestações tradicionais, como as Folias de Reis, as Festas do Rosário, os presépios, os altares domésticos e outras celebrações revelam a casa como espaço de acolhimento, espiritualidade e encontro. O gesto de receber uma visita, oferecer um café ou pedir licença para entrar traduz uma ética da hospitalidade profundamente presente na experiência cultural brasileira.

Ao mesmo tempo, Ôoo de Casa propõe uma reflexão sobre os desafios contemporâneos do habitar. Reconhece que nem toda casa representa proteção, pertencimento ou dignidade e que as desigualdades sociais também se manifestam nos espaços domésticos. A pesquisa amplia o debate sobre moradia, mostrando que habitar não significa apenas ocupar um espaço físico, mas construir vínculos, exercer direitos, preservar memórias e criar condições para que a vida floresça.

Ao escolher a casa como tema desta edição, o Museu do Folclore convida o público a olhar para aquilo que muitas vezes parece cotidiano demais para ser percebido. Cada morada guarda modos de fazer, de celebrar, de cuidar, de ensinar e de compartilhar que constituem parte importante do patrimônio cultural brasileiro. Objetos, aromas, cantos, receitas, brincadeiras, técnicas construtivas, formas de acolher e de conviver compõem uma delicada rede de saberes que atravessa gerações e continua sendo recriada diariamente.

Mais do que oferecer uma definição de casa, Ôoo de Casa convida cada visitante a atravessar essa soleira e percorrer os muitos sentidos do habitar. A exposição propõe reconhecer a casa como lugar onde patrimônio material e imaterial se encontram, onde cultura e natureza dialogam, onde memórias são preservadas e novos futuros podem ser construídos. Afinal, toda casa é muito mais do que paredes: ela abriga histórias, relações, conhecimentos e maneiras de compreender a vida.

Texto: Maira Dom

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