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No dia em que São José dos Campos completa 254 anos, o Museu do Folclore dá um presente à cidade, com o lançamento do livro ‘Do Cemitério ao Altar’ – Um estudo sobre a devoção e o processo canônico do Padre Rodolfo Komórek’ (27º volume da Coleção Cadernos de Folclore), de autoria do joseense Hugo Ricardo Soares, historiador, mestre e doutor em Antropologia Social.

 

O lançamento ocorrerá no dia 27, aniversário da cidade, às 16h, e será transmitido pelo Facebook do museu. Além do autor, também participará desse encontro virtual a folclorista Angela Savastano, vice-presidente do (CECP) Centro de Estudos da Cultura Popular, organização da sociedade civil sem fins lucrativos, que faz a gestão do Museu do Folclore.

 

A Coleção Cadernos de Folclore é um projeto desenvolvido pelo Museu do Folclore desde 1987 e suas publicações são resultado de uma parceria entre a Fundação Cultural Cassiano Ricardo e o CECP. Os livros retratam pesquisas científicas ou relatos de experiências na área do folclore e da cultura popular. O primeiro volume, ‘Azeite de Mamona’, tem como autores os folcloristas Toninho Macedo e Angela Savastano.

 

Primeira obra

 

“Esta obra é de suma importância para o Museu do Folclore e, com certeza, enriquecerá a Coleção Cadernos de Folclore, um projeto criado para dar vazão às muitas pesquisas realizadas por esse Brasil a fora nas áreas do folclore e da cultura popular”, enfatiza Angela Savastano.

 

“Eu me sinto lisonjeado pela oportunidade de poder contribuir com um projeto de tamanha importância. Essa é minha primeira obra e quero escrever mais. Por hora, tenho me dedicado mais a artigos científicos. Mas ando com algumas ideias, talvez escrever um livro sobre santidade no Brasil. Enfim, projetos”, destaca Hugo Soares.

 

Perfil do autor

 

Hugo Soares

Hugo Ricardo Soares, 41, é graduado em História, mestre e doutor em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. No final de 2018, finalizou no Departamento de Antropologia Social dessa mesma universidade seu pós-doutoramento. Durante o doutorado, foi pesquisador visitante na Università degli Studi di Udine, Itália.

 

Trabalhou como professor de História e Sociologia nos ensinos médio e fundamental e em cursos pré-vestibulares. Também atuou como professor de Antropologia em cursos de graduação e pós-graduação. Atualmente, é pesquisador do Laboratório de Antropologia da Religião – LAR (UNICAMP) e do grupo de pesquisa ‘Crise da presença e resgate cultural: a antropologia de Ernesto De Martino’ (UNIFESP).

 

Distribuição

 

Após o lançamento, a versão impressa do livro estará à disposição de interessados na Biblioteca Maria Amália Côrrea Giffoni, no Museu do Folclore. Para retirá-la, de maneira gratuita, é preciso agendar uma data pelo e-mail bibliotecadomuseu@gmail.com. A versão digital também ficará disponível no site do museu (www.museudofolclore.org) a partir do dia 27.

 

Confira abaixo algumas informações que o autor compartilhou sobre suas pesquisas e a obra:

 

Estudo etnográfico

 

“O texto do livro é um estudo etnográfico (antropológico) sobre a devoção e o processo de canonização do Padre Rodolfo. Ele entra numa longa tradição de estudos sobre santidade nas Ciências Sociais e na História. Ninguém ainda trabalhou o caso específico do Padre Rodolfo, mas existem muitos trabalhos importantes no Brasil sobre outras devoções, como estudos sobre o Padre Cícero, sobre o Frei Galvão, sobre Madre Paulina”.

 

Abordagem do tema

 

“Desde a graduação, eu tinha interesse em pesquisar o tema da religião, especificamente o catolicismo. A oportunidade para isso veio com meu mestrado, que foi uma pesquisa sobre a devoção dedicada ao Padre Rodolfo, no cemitério de SJC. Essa pesquisa focou apenas a dimensão devocional dos devotos, não abordando, portanto, a produção do processo canônico pelos salesianos”.

 

“Meu interesse no Padre Rodolfo existia desde criança, pois sou nascido e crescido em SJC e sempre achei interessantíssima a história daquele homem (e esse não era um interessa religioso propriamente, mas uma curiosidade mesmo)”.

 

“No doutorado, resolvi continuar a pesquisa anterior, mas enfocando mais o lado da Igreja, ou seja, focando mais nos procedimentos e ações organizados e tocados pelos interessados na beatificação/canonização do Padre Rodolfo”.

 

“Meu pressuposto no início do doutorado, que é a minha tese atual, ou seja, a tese do livro, é que a ‘produção social do santo’ (esse é um conceito meu) acontece neste universo mais amplo de simbolizações, trocas, ritos, etc., que envolve não somente os devotos, mas uma série de outros atores, especialmente os eclesiásticos que cuidam e organizam o processo de canonização”.

 

“O livro procura fazer exatamente isso: descrever e analisar este longo périplo que um candidato à glória dos altares segue da devoção local, que acontece de maneira bastante livre e espontânea no cemitério, à produção biográfica-hagiográfica organizada pelos eclesiásticos até alcançar a canonização”.

 

Canonização

 

“O processo de canonização do Padre Rodolfo teve início em 1964. A primeira fase, chamada diocesana (que é o momento em que foram feitas as investigações biográficas sobre o Padre Rodolfo, bem como o momento em que funciona o tribunal diocesano, que colhe os depoimentos das testemunhas do processo), terminou em 1968. Os documentos dessa primeira etapa foram enviados para Roma, onde foi produzida a positio, que é documento propriamente do processo”.

 

“Em 1996, o Padre Rodolfo foi elevado à condição de ‘venerável’, ou seja, a Santa Sé aceitou o argumento do processo, que diz que ele vivenciou de maneira ‘heroica as virtudes cristãs. Agora, para que ele se torne ‘beato’, é preciso que um milagre atribuído à sua intercessão seja comprovado. Depois que ele se tornar ‘beato’, vai precisar de mais um milagre comprovado para, finalmente, se tornar santo. Há um longo caminho ainda. Atualmente, portanto, os envolvidos com o processo canônico estão à espera de um milagre”.

 

“Ainda não existe nenhum milagre comprovado pela Igreja, mas o Padre Rodolfo faz milagres todos os dias para seus devotos. Aqui há uma diferença de percepção do que é o milagre. Para os devotos, os milagres podem ser cotidianos e não precisam, necessariamente, serem comprovados pela Igreja. Para esta, o milagre é um evento bastante complexo, que precisa ser minuciosamente analisado por cientistas e por teólogos, antes de ser confirmados pela Igreja”.

 

Facilidades

 

“Não tive dificuldades para realizar minhas pesquisas. Os salesianos sempre foram muito solícitos ao me liberarem a documentação, tanto no arquivo da causa do Padre Rodolfo, localizado na Paróquia Sagrada Família, quanto no arquivo da postulação geral salesiana, localizado em Roma”.

 

“Entrevistei, no Brasil, cinco salesianos que cuidaram, em momentos diferentes, da causa do Padre Rodolfo. Em Roma, entrevistei mais dois padres salesianos que cuidam desta questão na congregação e um padre que trabalha na Congregação das Causas dos Santos, no Vaticano”.

 

“Também não tive dificuldade com os devotos. Na grande maioria das vezes, foram muito solícitos quando eu os abordava para uma conversa. Não sei quantos entrevistei, mas foram muitos, uns 20 ou 30”.

 

“Uma das coisas mais interessantes foi descobrir que Riolando Azzi era o principal biógrafo do Padre Rodolfo. Eu já o conhecia como autor de estudos sobre catolicismo popular e história da Igreja no Brasil. Na verdade, ele é o principal historiador da Igreja no Brasil e já escreveu inúmeros livros e artigos sobre o assunto. Durante a pesquisa eu tive o privilégio de entrevista-lo. Foi uma grande honra”.

 

Contribuição

 

“Esse livro não é uma biografia do Padre Rodolfo, nem um livro devocional. Mas, pode interessar aos seus devotos (ou mesmo quem não seja), pois estabeleço uma interpretação sobre a dimensão social que existe por trás de um fenômeno religioso. Pode interessar, pois eu descrevo e explico esses procedimentos que, muitas vezes, não são visibilizados no dia-a-dia”.

 

Dimensão social

 

“Tudo é social. Até o milagre tem sua dimensão social. Primeiramente, quando falo de social, estou falando de uma dimensão simbólica, que orienta e organiza a vida humana. Um fenômeno como a devoção (a qualquer santo), por si só, já é social na medida em que, para existir, esse fenômeno pressupõe uma crença num código específico, que é (e precisa ser) compartilhado por um grupo (uma cidade, um país, uma religião)”.

 

“Não existe religião (nem cultura) de um homem só. A devoção também produz outros fenômenos de sociabilidade: devotos que se reúnem para rezar ao Padre Rodolfo, grupos de oração, eventos em torno do santo, festas”.

 

Repercussão

 

“Acredito que o livro terá uma boa repercussão, principalmente com um público que gosta de história, estudos sobre cultura popular, que se interessa por religião. Acho que para a comunidade científica eu trago uma contribuição interessante, pois poucas pesquisas de historiadores ou antropólogos interessados no catolicismo e na santidade, fizeram o movimento que eu fiz, ou seja, considerar o santo neste cenário mais amplo, que envolve outros atores para além dos devotos”.

 

Pesquisas viram livro

 

“Eu gostei muito que as minhas pesquisas pudessem se transformar em um livro. Frequento o Museu do Folclore há bastante tempo (2005) e entendo a importância que ele exerce para a cidade de São José dos Campos e para todo o Vale do Paraíba. Também fiquei feliz de participar de uma coleção (Cadernos de Folclore) que conta com muitos outros bons livros. Preciso mencionar também o fato de ser gratuito. Conhecimento precisa ser gratuito, ainda mais conhecimento produzido com financiamento público, como foi o meu caso”.

 

Padre Rodolfo veio morar em São José dos Campos na década de 40

 

Túmulo do Padre Rodolfo no cemitério que leva o nome dele

Padre Rodolfo Komórek nasceu no dia 11 de outubro de 1890, em Bielsko, na Polônia, e muito antes de se tornar padre já demonstrava sinais de santidade. Sua trajetória de vida está intimamente ligada a São José dos Campos, onde emprestou seu nome a um cemitério, rua e instituto de padres salesianos.

 

Em 1924, Padre Rodolfo chegou ao Brasil, enviado para dar atendimento espiritual aos colonos poloneses de Dom Feliciano (RS). Mais tarde, foi transferido para o Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora de Niterói (RJ) e desenvolveu atividades como vigário cooperador em Luiz Alves (SC).

 

No Vale do Paraíba, a primeira cidade onde chegou foi Lavrinhas, na época em que começou a sentir os primeiros sintomas de doença pulmonar. Veio morar em São José dos Campos no início da década de 1940.

 

Mesmo durante o tratamento contra a tuberculose, Padre Rodolfo dedicou-se a atender doentes em hospitais, asilos e pensões hospitalares da cidade, considerada então uma estância climática.

 

Sua morte ocorreu no dia 11 dezembro de 1949, tendo sido enterrado no cemitério do centro de São José – que recebeu seu nome em 2003. Entretanto, no local existe apenas uma referência, pois em 1996, Dom Nelson Westrupp, então bispo diocesano autorizou a exumação e transladação de seus restos mortais para a Casa de Relíquias, anexa à Paróquia Sagrada Família, em São José dos Campos.

 

(*) Fonte: http://sagradafamiliaonline.org.br/

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